segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Primorosamente orquestrado, "Whiplash" é pura tensão e recompensa

A temporada 2015 está harmoniosamente rica. Somente por "O Abutre/Nightcrawler" e "Whiplash", já valeu muito a pena saborear a safra. O filme vencedor o festival independente de Sundance é simplesmente o mais tenso que já vi na vida! Quem tem úlceras, convém uma boa dose de Eno antes da sessão.

Não, não estou falando de um filme de terror, nem um thriller psicológico ou um filme em um campo de concentração. A história gira em torno do personagem Andrew Neiman (Miles Teller), um estudante de bateria em uma das mais conceituadas escolas de música dos EUA e o seu professor, Terence Fletcher (J.K. Simmons), que personifica o ritmo das chicotadas em busca da perfeição e sincronia em sua banda.

O personagem de J.K. Simmons não só o coloca como o favorito ao Oscar de ator coadjuvante, mas já está no rol dos maiores vilões da história do cinema. Não há um só segundo em que ele está na tela em que você não está com, no mínimo, aquele nó na garganta de puro medo!

J.K.Simmons foi indicado ao Globo de Ouro e deve ser indicado ao Oscar pelo papel que conduz a trama, literalmente. Foto: 
Texto, direção (Damien Chazelle), fotografia e, principalmente, edição, são um show, primazia total da sétima arte. A seqüência final do filme é para ficar na memória de todos os cinéfilos, para todo o sempre! Corram para o cinema - estreia dia 8!

sábado, 20 de dezembro de 2014

Roteiro afinado e protagonista no auge conduzem o excelente "O Abutre"

Os filmes argentinos muitas vezes não tem uma grande produção, mas o roteiro é sempre afinado. Filmes americanos geralmente tem uma grande produção, mas roteiros nem sempre muito interessantes. Ou nem sempre... muitos tem efeitos especiais fantásticos e roteiros e argumentos bem definidos, como os filmes de Christopher Nolan, por exemplo.

O que é raro de se ver é um filme americano sem grande produção que possa brilhar intensamente tanto quanto ou mais que um "Interestelar", por exemplo. Mas isso acontece e aconteceu com "O AbutreNightcrawler", do estreante diretor Dan Gilroy, irmão menos famoso de Tony Gilroy (diretor de Michael Clayton).

A história de um aproveitador psicopata que resolve tornar-se um cinegrafista amador para fornecer imagens de crimes urbanos aos jornais matutinos não parece tão genial quanto o produto final do filme. O clímax da história me deixou literalmente na ponta da cadeira do cinema por mais de 10 minutos. Tudo isso sem efeitos especiais, sem explosões, somente com uma história muito bem conduzida por um texto absolutamente redondo e pela interpretação magnífica de Jake Gyllenhaal (críticos apontam um Oscar para ele - que deveria ter vindo em Brokeback Mountain).

O personagem central, Lou Bloom, é um produto de nossa sociedade. Dentro da lógica "mate ou seja morto", ele não encontra limites para conseguir o que quer, sucesso, diante de falas que parecem saídas diretas do Google e, muitas vezes, de reuniões corporativas de qualquer grande empresa de qualquer segmento profissional. Mais do que um filme que retrata a vida de telejornais à la Datena, "O abutre" é sim um retrato da sociedade e do tipo de ser humano em que cultuamos como bem-sucedidos.

Jake Gyllenhaal perdeu 20kg e buscou ficar parecido com um coiote faminto para o papel de Lou Bloom - foto: www.eonline.com

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Questionamentos quase validam o medíocre "Exodus"

"O Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável da ficção: ciumento, e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo." O trecho do livro "Deus, um Delírio", de Richard Dawkins, deve ter inspirado e muito o diretor e produtor Ridley Scott quando concebeu uma nova versão para uma das histórias mais marcantes da bíblia: o Êxodo.

Sim, pois o risco de se mexer com um épico do cinema como "Os 10 mandamentos" é enorme. Não há dúvidas que Ridley Scott quis novamente fazer um épico com "Exodus". Quase conseguiu com "Gladiador" (tentando seguir "Spartacus"), mas com certeza falhou em sua nova superprodução. No elenco, se Christian Bale não comprometeu, também não brilhou; os veteranos-deuses Sigourney Weaver e Ben Kingsley foram subaproveitados; e a nova safra de atores, como Aaron Paul, parece ter sofrido com a evidente má edição do filme, que deve ter perdido no mínimo uma hora da versão do diretor por razões comerciais. 

Fora a maquiagem ruim em um elenco caucasiano demais para retratar o Egito antigo. Ponto para Mel Gibson, que com "A Paixão de Cristo", além de escolher um elenco etnicamente crível, fez todo mundo falar aramaico e latim. Espetáculo!

Mas voltando ao início e ao título da postagem. Apesar de não conseguir retratar tão bem historicamente a passagem bíblica como o filme de Cecil B. De Mille (o mestre dos épicos) ou a relação fraternal de Ramsés e Moisés como a animação "O Príncipe do Egito" (onde Ralph Fiennes, dublando Ramsés, teve uma atuação melhor que qualquer ator de "Exodus"), o filme traz um elemento novo: o questionamento da posição de Deus diante de todas as pragas acontecidas no Egito e também da personalidade de Moisés. Representado por um menino, e não uma voz do além atrás de um "burning bush", Deus realmente parece ser, no mínimo, vingativo. Já Moisés é muito mais um general assassino egípcio do que um pastor errante hebreu em boa parte do filme.

Apesar destes pontos positivos, desafiadores e modernos, o filme não se sustenta como um filme de Ridley Scott com grande elenco. Esperava mais, muito mais.


A parceria entre os grandes Ridley Scott (diretor) e Christian Bale (ator) não deu liga em "Exodus" - foto: patdollard.com

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Multidimensional, "Interestelar" é novo marco da ficção científica

"Interestelar/Interstellar" é mais um filme que comprova que Christopher Nolan não erra. Não existem filmes ruins vindos dele, o que, por um lado, sempre nos coloca em um grau elevado de expectativa diante de suas produções. A sua superprodução que estreou hoje no Brasil, com o mais novo hiper-ator de Hollywood, a fênix renascida das comédias românticas idiotinhas e dos filmes de ação quase B, Matthew McConaughey, talvez seja o seu melhor filme, o que pode ser comprovado nas décadas vindouras.

O talvez venha do espetáculo que é "Dark Knight". Ali há toda a trupe técnica de Nolan, excelente, como se comprovou em "A Origem/Inception" por exemplo, aliada a interpretações fantásticas e um roteiro provocativo em cima de um tema que nunca foi levado à sério - superheróis. Nolan o tornou sério.

A ficção científica está em outro patamar dos superheróis, mas também tem um certo preconceito contra si. Os roteiros nunca são considerados os melhores, apesar de clássicos como "2001", ou as produções acabam não sendo levadas ao seu último nível de seriedade, já que não discutem temas "relevantes" ou politicamente consistentes, como o caso de "Gravidade", do ano passado, claramente o melhor filme, mas passado para trás no Oscar diante de "12 Anos de Escravidão/12 Years a Slave".

"Interestelar" não tem um roteiro ou direção melhores que "2001", um filme muito mais transcendental e aberto a interpretações e, claro, pioneiro; "Interestelar" não é melhor produzido que "Gravidade/Gravity", que claramente inspirou a filmagem espacial de Nolan, mas foi mais ousado a propor uma história que se passa exclusivamente no espaço e muito mais próximo de nossa realidade atual.

Mas "Interestelar" parece preencher as lacunas deixadas por estes dois filmes, sem os quais, obviamente, não existiria. A produção de Nolan não deixa muitas lacunas para serem imaginadas, sendo de mais fácil compreensão que o clássico de Kubrick, tornando-se um produto mais condizente com os dias atuais (#blockbusterfeelings). E em contrapartida ao filme de Cuarón, "Interestelar" é sim um filme político, ecológico e atual, que debate, de forma indireta, a exaustão dos recursos naturais e suas conseqüências devastadoras para famílias, países e o futuro da humanidade.

A história se passa em um futuro próximo, não determinado, em que culturas agrícolas são atacadas por uma praga terrível, não determinada, sobrando somente milho para ser cultivado. A fome mata bilhões de pessoas no mundo, além da dessertificação e as tempestades de areia. Em um mundo faminto, os agricultores são os mais valorizados, enquanto engenheiros (personagem de McConaughey) e outros cientistas, tem seus papéis bastante diminuídos.

Impulsionado pelo espírito científico que cultiva até mesmo com seus filhos dentro de sua fazenda (a ligação com sua filha Murphy - interpretada por Mackenzie Foy/Jessica Chastain/Ellen Burstyn - é crucial para o filme), McConaughey é convocado para uma viagem interestelar cujo objetivo é encontrar um novo mundo para que nós, humanos, possamos habitar. O elenco tem outras estrelas, como Anne Hathaway, Matt Damon, Michael Cane, John Lithgow e Casey Affleck.

A pequena Mackenzie Foy brilha em "Interestelar" - foto: www.inentertainment.co.uk

O filme também me lembra uma outra produção, que me impactou ainda mais - "A Árvore da Vida/The Tree of Life". Se o filme de Terrence Malik discute o transcendentalismo enfatizando o nosso ínfimo papel na história do universo, o filme de Nolan hipervaloriza nosso protagonismo, o que, por vezes, pode soar piegas (o que eu não achei, mas acredito que pode ser interpretado assim), mas, de verdade, tem um clímax extremamente emocionante e esperançoso.

O lado talvez mais importante do filme é o quanto ele pode popularizar as diversas teorias da física "moderna" aplicadas nele (o físico teórico Kip Thorne foi consultor do filme). Multiversos, teoria do caos, das cordas e a incrível teoria sobre a gravidade e sua capacidade de viajar no tempo e espaço (o fenômeno que acontece no quarto de Murphy explicaria muitos filme de terror- lol) podem ter a mesma influência que "Minority Report" teve sobre a nossa década (telas touchscreen por todo lado). Espero viver para ver, no mínimo, a aplicação práticas destas loucuras extremamente interessantes.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Frank Underwood: modelo da ou para sociedade?

POR RAFAEL YAMAMOTO* (spoiler alert para quem não viu a segunda temporada)



Finalmente, ele é o homem mais poderoso do mundo. De Gaffney ao Salão Oval. Ele realmente conseguiu. Homem forte, determinado, confiante e maquiavélico. Frank Underwood é um homem que todos nós deveriamos nos espelhar. Não? Aliás, ter poder e dinheiro é sinônimo de sucesso nas sociedades Ocidentais... não, não é.

Quem assiste House of Cards precisa ter cuidado. O anti-herói, representado por Kevin Spacey, não deve – e nem pode – ser visto como um modelo positivo para a nossa sociedade atual.

Dinheiro e poder não deveriam ser os nossos objetivos. Você já parou para pensar no significado da vida? “Por que estamos aqui?” “Para que vivemos?” “Será que eu deveria me matar de trabalhar para uma empresa? Qual o ponto disso?”

Quem já assistiu às duas temporadas sabe o preço que Francis teve que pagar para chegar até lá: traiu amizades, quebrou leis (jurídicas e éticas) e, acima de tudo, matou pesssoas. Ele não é um herói. Ele é o vilão do pior tipo que tem: aquele que não parece ser. Ele é tão persuasivo que ele não só manipula o governo, ele também manipula a audiência. Inclusive, audiência que ele nem ao mesmo finge que não está lá. Francis é realista. Ele sabe que estamos assistindo, e ele conversa com a gente. Olha nos nossos olhos e conta seus planos malignos que trará vantagens para ele. E só para ele. Ele nos encanta com suas piadas cínicas, seu carisma enganador e sua implacável ganância pelo poder. 

E isso me preocupa. Amigos que também assistem à serie ficam abismados e vibram com as manobras geniais de Frank. Até chegam a dizer que querem ser como ele. E isso me preocupa. Como alguém quer ter as características de Underwood? Será que é por causa do “jeitinho brasileiro”? Da Lei de Gérson? De como Frank Underwood ensina sua audiência a procurar o ponto fraco de seus oponentes e não ter piedade?

Agora, como uma pessoa com tantos pecados consegue viver? Leon Festinger, um psicólogo americano, criou a teoria da Dissonância Cognitiva. Basicamente, ele explica como nós, seres humanos, criamos e/ou, dependendo da situação, distorcemos realidade e verdades para olharmos para nós mesmos como boas pessoas. Se eu tivesse que adivinhar, diria que Frank, diferente da maioria dos políticos, é sincero consigo mesmo e não se enganaria ao dizer para sua própria consciência que está fazendo tudo isso pelo seu país. Em vez disso, ele teria coragem o suficiente de acreditar que o poder é a razão da nossa existência e apenas o poder nos trará felicidade. Não se engane pensando que Frank Underwood ficou com a consciência pesada ao matar Zoe, Peter Russo ou até mesmo o cachorro de seu vizinho.

Eu ainda tenho uma fé genuína e, talvez, ingênua na humanidade. Acredito que as necessidades humanas básicas não passam de amor, carinho e afeição. Todo o resto (ganância, inveja etc) é resultado do meio corrompido que vivemos.


Mas, quando assistir à terceira temporada de House of Cards (Fev/2015), tenha cuidado, não seja manipulado por Frank, amigo leitor. Não o veja como um modelo positivo de indivíduo. Olhe para ele como um modelo de uma pessoa que você não quer ser. A não ser que você queira ser egoísta, corrupto, infiel e podre. Porque embora a gente consiga mentir para os outros, no fundo, nós não conseguimos mentir para nós mesmos.

Cena já lendária da segunda temporada de House of Cards.