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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"A Chegada" tem grau de relevância máximo nos tempos atuais

O quanto um filme é relevante para os tempos atuais? O último Oscar parece ter levado isso muito em conta na última premiação, que tinha “The Revenant” como favorito, principalmente por seus brilhantes aspectos técnicos e atuação ultracomentada de Leonardo DiCaprio (que finalmente ganhou). Mas no final, “Spotlight”, filme-denúncia sobre a investigação da imprensa em cima dos crimes de pedofilia da igreja católica em Boston levou a melhor, em um raro ano em que o melhor filme ganhou apenas duas estatuetas (o outro foi roteiro original).

E se formos levar em questão este quesito, relevância aos tempos atuais, “Arrival” (A Chegada), a nova investida do diretor canadense Denis Villeneuve, já sai com nota onze! O filme trata da chegada de espaçonaves alienígenas em vários pontos da Terra, com foco especial na nave parada no estado americano de Montana.



Em vez de partir para uma abordagem a la “Independece Day”, o filme aposta em alienígenas que não atacam e, muito originalmente, não chegam falando inglês como em todos os filmes. O foco permanece então em como entrar em contato com os mesmos. Eis que entram entra a protagonista, a excelente Amy Adams, interpretando a linguista Louise Banks. Ela será a responsável por decifrar a misteriosa linguagem dos aliens, baseada em ideogramas.

A difícil comunicação com os aliens expõe, na verdade, o outro problema, do filme e também de nossos tempos atuais: o medo, os pré-conceitos e a falta de comunicação e cooperação entre os povos. As várias investigações ao redor do mundo andariam muito mais rápido e teriam resultado muito mais efetivo com a união de todos, algo extremamente óbvio nos dias atuais, mas que o ano de 2016 expôs como algo cada vez mais distante de acontecer, apesar de todo o avanço tecnológico já conseguido pela humanidade.

E isso é apenas uma parte do filme: as teorias sobre tempo e espaço e mais o fio-condutor emocional da relação de Banks com a sua filha também são extremamente bem conduzidos pelo filme, que tecnicamente também tem em sua trilha sonora (do inovador Jóhann Jóhannsson, pela terceira vez trabalhando com Villeneuve) e a fotografia de Bradford Young seus pontos altos.

Um dos melhores filmes do milênio até aqui!

quinta-feira, 28 de abril de 2016

"Civil War" destrói maniqueísmos com roteiro afiado e elenco estelar

Os filmes do Capitão América foram todos excelentes e em uma escala crescente. Se já achava o "Winter Soldier" o melhor filme da Marvel, o terceiro, este "Civil War", roubou o título agora (o melhor filme de heróis ainda é o "Dark Knight"). Nem cabe a comparação com o tal Batman vs Superman, pois a direção dos irmãos Russo é diametralmente oposta a de Zack Snider: eles priorizam o real, tanto na ação quanto nos sentimentos; já Snider ama os CGIs estilosos e sentimentos... que sentimentos?

"Civil War" é um filme de heróis que os utiliza para falar de temas atuais, humanos, hiperbolizados pelo escudo de vibranium, a armadura de Tony Stark ou as teias do "Garoto"-Aranha: estão lá o olho por olho/pena de morte, terrorismo, o princípio de defesa a todos os cidadãos, o direito à democracia e a importância do pensamento crítico em um instante em que o comportamento de manada toma mais e mais conta das mídias (todas elas).

Chris Evans encabeça o maior e melhor elenco de um filme de super-heróis
Não há vilões ou bandidos, há apenas ações e reações e suas conseqüências. Mas o desafio de fazer um filme deste gênero sem o pensamento fácil do good guy/bad guy não seria possível apenas pela direção dos irmãos Russo ou o afiado roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely. O elenco deveria dar credibilidade, na tela, às ideias propostas. E neste quesito, só aplausos para os fixos dos Avengers Cris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Don Cheadle e Paul Bettany, além das participações estelares do consagrado William Hurt e do cult Daniel Brühl.

"Civil War" é obrigatório para ser assistido e essencial para ser absorvido. Você está realmente pronto para pensar e tomar decisões além do básico, como #TeamCap ou #TeamStark? Este é o real convite deste excelente filme.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Primorosamente orquestrado, "Whiplash" é pura tensão e recompensa

A temporada 2015 está harmoniosamente rica. Somente por "O Abutre/Nightcrawler" e "Whiplash", já valeu muito a pena saborear a safra. O filme vencedor o festival independente de Sundance é simplesmente o mais tenso que já vi na vida! Quem tem úlceras, convém uma boa dose de Eno antes da sessão.

Não, não estou falando de um filme de terror, nem um thriller psicológico ou um filme em um campo de concentração. A história gira em torno do personagem Andrew Neiman (Miles Teller), um estudante de bateria em uma das mais conceituadas escolas de música dos EUA e o seu professor, Terence Fletcher (J.K. Simmons), que personifica o ritmo das chicotadas em busca da perfeição e sincronia em sua banda.

O personagem de J.K. Simmons não só o coloca como o favorito ao Oscar de ator coadjuvante, mas já está no rol dos maiores vilões da história do cinema. Não há um só segundo em que ele está na tela em que você não está com, no mínimo, aquele nó na garganta de puro medo!

J.K.Simmons foi indicado ao Globo de Ouro e deve ser indicado ao Oscar pelo papel que conduz a trama, literalmente. Foto: 
Texto, direção (Damien Chazelle), fotografia e, principalmente, edição, são um show, primazia total da sétima arte. A seqüência final do filme é para ficar na memória de todos os cinéfilos, para todo o sempre! Corram para o cinema - estreia dia 8!

sábado, 20 de dezembro de 2014

Roteiro afinado e protagonista no auge conduzem o excelente "O Abutre"

Os filmes argentinos muitas vezes não tem uma grande produção, mas o roteiro é sempre afinado. Filmes americanos geralmente tem uma grande produção, mas roteiros nem sempre muito interessantes. Ou nem sempre... muitos tem efeitos especiais fantásticos e roteiros e argumentos bem definidos, como os filmes de Christopher Nolan, por exemplo.

O que é raro de se ver é um filme americano sem grande produção que possa brilhar intensamente tanto quanto ou mais que um "Interestelar", por exemplo. Mas isso acontece e aconteceu com "O AbutreNightcrawler", do estreante diretor Dan Gilroy, irmão menos famoso de Tony Gilroy (diretor de Michael Clayton).

A história de um aproveitador psicopata que resolve tornar-se um cinegrafista amador para fornecer imagens de crimes urbanos aos jornais matutinos não parece tão genial quanto o produto final do filme. O clímax da história me deixou literalmente na ponta da cadeira do cinema por mais de 10 minutos. Tudo isso sem efeitos especiais, sem explosões, somente com uma história muito bem conduzida por um texto absolutamente redondo e pela interpretação magnífica de Jake Gyllenhaal (críticos apontam um Oscar para ele - que deveria ter vindo em Brokeback Mountain).

O personagem central, Lou Bloom, é um produto de nossa sociedade. Dentro da lógica "mate ou seja morto", ele não encontra limites para conseguir o que quer, sucesso, diante de falas que parecem saídas diretas do Google e, muitas vezes, de reuniões corporativas de qualquer grande empresa de qualquer segmento profissional. Mais do que um filme que retrata a vida de telejornais à la Datena, "O abutre" é sim um retrato da sociedade e do tipo de ser humano em que cultuamos como bem-sucedidos.

Jake Gyllenhaal perdeu 20kg e buscou ficar parecido com um coiote faminto para o papel de Lou Bloom - foto: www.eonline.com

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Questionamentos quase validam o medíocre "Exodus"

"O Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável da ficção: ciumento, e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo." O trecho do livro "Deus, um Delírio", de Richard Dawkins, deve ter inspirado e muito o diretor e produtor Ridley Scott quando concebeu uma nova versão para uma das histórias mais marcantes da bíblia: o Êxodo.

Sim, pois o risco de se mexer com um épico do cinema como "Os 10 mandamentos" é enorme. Não há dúvidas que Ridley Scott quis novamente fazer um épico com "Exodus". Quase conseguiu com "Gladiador" (tentando seguir "Spartacus"), mas com certeza falhou em sua nova superprodução. No elenco, se Christian Bale não comprometeu, também não brilhou; os veteranos-deuses Sigourney Weaver e Ben Kingsley foram subaproveitados; e a nova safra de atores, como Aaron Paul, parece ter sofrido com a evidente má edição do filme, que deve ter perdido no mínimo uma hora da versão do diretor por razões comerciais. 

Fora a maquiagem ruim em um elenco caucasiano demais para retratar o Egito antigo. Ponto para Mel Gibson, que com "A Paixão de Cristo", além de escolher um elenco etnicamente crível, fez todo mundo falar aramaico e latim. Espetáculo!

Mas voltando ao início e ao título da postagem. Apesar de não conseguir retratar tão bem historicamente a passagem bíblica como o filme de Cecil B. De Mille (o mestre dos épicos) ou a relação fraternal de Ramsés e Moisés como a animação "O Príncipe do Egito" (onde Ralph Fiennes, dublando Ramsés, teve uma atuação melhor que qualquer ator de "Exodus"), o filme traz um elemento novo: o questionamento da posição de Deus diante de todas as pragas acontecidas no Egito e também da personalidade de Moisés. Representado por um menino, e não uma voz do além atrás de um "burning bush", Deus realmente parece ser, no mínimo, vingativo. Já Moisés é muito mais um general assassino egípcio do que um pastor errante hebreu em boa parte do filme.

Apesar destes pontos positivos, desafiadores e modernos, o filme não se sustenta como um filme de Ridley Scott com grande elenco. Esperava mais, muito mais.


A parceria entre os grandes Ridley Scott (diretor) e Christian Bale (ator) não deu liga em "Exodus" - foto: patdollard.com

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Estelar, "O Grande Hotel Budapeste" pode dar o merecido Oscar a Wes Anderson

Wes Anderson é o mais europeu dos diretores americanos. Sua originalidade estética e a linguagem escolhida para compor seus lexicamente ricos roteiros estão longe, muito longe da média do que é produzido nos EUA em décadas. Exemplos disso são seus sucessos anteriores, como "A Vida Marinha com Steve Zissou" (com Seu Jorge no elenco!), "Viagem a Darjeeling" e o fantástico "Os Excêntricos Tenenbaums". Não à toa, Anderson, mesmo com orçamentos mais parecidos com europeus que hollywoodianos, não tem problemas em conseguir reunir os melhores atores do mundo para papéis coadjuvantes em suas histórias.

O único problema de Anderson, se é que isso é um problema, foi ter criado uma assinatura tão forte e única que seus filmes davam a sensação de serem muito parecidos entre si. Este "problema" foi dissipado com "O Grande Hotel Budapeste". A história se passa em um país fictício do leste europeu no período entre as duas guerras mundiais, centrado em um personagem que administra o hotel do título logo após a contratação de um novo carregador de malas (lobby boy). Ralph Fiennes dá show como M. Gustave, um saudosista da Belle Époque, baseado no romancista austríaco radicado no Brasil Stefan Zweig, com um texto rebuscado afiado, com pitadas certeiras de coprolalia, garantindo altas (em decibéis mesmo) risadas - indicação ao Oscar garantida!

A fotografia, os cenários, as deliciosas interpretações caricatas estão lá, mas com um tempero único neste que é o melhor filme de Wes Anderson. Foto: www.vanityfair.com

Além de Fiennes, o novo filme do diretor americano tem talvez o mais estelar elenco do século: Edward Norton, Tom Wilkinson, Jeff Goldblum, Jude Law, F. Murray Abraham, Harvey Keitel, William Dafoe, Saoirse Ronan, Tilda Swinton (que vai garantir a indicação para Maquiagem - ou pelo menos deveria), Lea Seydoux, Mathieu Almaric e os onipresentes Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman. A novidade fica para o coadjuvante de Fiennes, o lobby boy Tony Revolori, que não se intimidou de contracenar com Fiennes.

Além do roteiro e elenco, a direção de Anderson deu ainda mais atenção a figurinos e cenários, além de prestar homenagem aos filmes alemães mudos com movimentos de câmera que remetem à década de 20 e 30, acrescentando ainda mais comicidade às cenas do fim de uma época glamourosa esmagada pelo totalitarismo e a guerra. Se "O Grande Hotel Budapeste" não é uma metáfora para passar uma mensagem à atualidade, é no mínimo uma grande realização cinematográfica em todos os aspectos técnicos (edição, fotografia, cenários, figurino, edição, som e maquiagem) e artísticos (roteiro, direção e elenco - será difícil tirar o SAG deste filme em janeiro que vem). É imperdível!

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Villeneuve usa Lynch e Cronenberg para (tentar) adaptar Saramago em "O Homem Duplicado"

Li "O Homem Duplicado" de Saramago há alguns meses e o fato é que me deliciei muito mais com os enormes parêntesis narrativos que o prêmio Nobel de Literatura de 1998 fazia para tirar um sarro de seu protagonista (o famigerado Tertuliano Máximo Afonso) e todas as suas idiossincrasias e mediocridades da vida comum de um professor de História enfadonho, do que com o drama - totalmente surreal - que pode ser vivido quando se descobre que há alguém no mundo exatamente igual a você.

Jake Gyllenhaal interpreta o personagem duplicado em sua segunda colaboração com Dennis Villeneuve (a primeira foi em "Os Suspeitos"). Foto: www.sfstation.com

O motivo que me levou a ler o livro - que estava "mofando" no meu Kindle há alguns meses - foi saber que havia uma adaptação cinematográfica para a obra, dirigida pelo grande diretor canadense Denis Villeneuve - cujos dois filmes que assisti achei, um, muito bom - "Os Suspeitos/Prisioners" - e outro, absolutamente genial e impactante - "Incêndios/Incendies".

Villeneuve não caiu no mesmo erro que Fernando Meirelles na adaptação de "Ensaio sobre a Cegueira/Blindness", quando o diretor brasileiro quis praticamente seguir o livro. Se, para mim, Saramago não conseguiu ser dramático em "O Homem Duplicado" (se é que ele quis ser dramático, acho que quis muito mais criticar a inércia que temos à Ordem imposta pela sociedade muito mais por sua ridicularização a Tertuliano), em "Ensaio...", todo o drama e angústia do mundo estão ali.

O diretor canadense parece ter bebido na fonte de outros dois grandes (maiores que ele) diretores: usou o surrealismo do americano David Lynch para justificar a epígrafe da obra literária em seu filme - "O Caos é uma ordem a ser decifrada" - com a estética kafkiana e claustofóbrica do canandense David Cronenberg.

Para mim, o diretor acerta ao eliminar o humor da adaptação e de, com sucesso, concentrar todo o filme na angústia não do que é ter uma pessoa igual a você no mundo, mas sim da angústia de não saber quem é você mesmo. O Tertuliano das telas, o professor de História, tem sua história retratada no início do filme de forma repetitiva, para reforçar o quão medíocre e rotineira é sua vida. E a frase proferida por ele e que se repete é que todas as ditaduras da História tentam ter o controle sobre a situação, seja dando entretenimento ao povo, seja por outras artimanhas.

O filme mostra o personagem principal descobrindo erros em sua própria história e personalidade, que vão se misturando com a de sua "cópia" - o que fica evidente quando sua mãe (Isabella Rosselini!) afirma que ele sempre gostou de blueberries ou quando a esposa da "cópia" pergunta como foi o seu dia na escola (praticamente pistas de defeitos na "Matrix").

A cena final, que causa grande polêmica e é a maior citação à David Lynch no filme, para mim, evidencia a quebra final do mecanismo opressor da sociedade pelo protagonista, encurralando o sistema em um beco sem saída e, finalmente, decifrando a ordem caótica onde, talvez, tudo o que façamos em nossas vidas cotidianas realmente não tenha nenhum sentido. Outra detalhe que corrobora com esta interpretação é o título original em inglês, "Enemy": o inimigo não é o outro, o inimigo está além da compreensão e precisa ser decifrado para ser encurralado e, enfim, derrotado.

Se o argumento e as intenções de Villeneuve e do roteirista Javier Gullón (espanhol) são bastante abertas a interpretações, alguns pontos objetivos e altos do filme são mais claros e (também) para mim, dignos de todos os elogios: a fotografia (Nicolas Bolduc) e a trilha sonora (Danny Bensi e Saunder Jurriaans) merecem concorrer ao Oscar e ajudam a compor um clima absolutamente soturno a este filme desafiador. Assista e leia... quebre um pouco a sua cabeça!

PS: hoje faz quatro anos que Saramago se foi....  mas seus livros estão aí... vamos lê-los (vou começar mais um e depois escrevo sobre ele, sem precisar que haja uma adaptação cinematográfica para me empurrar ao Kindle).

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Metafórico e com várias citações cinematográficas, "No Limite do Amanhã" surpreende

O trailer do novo filme de Tom Cruise (e a talentosa Emily Blunt - mais conhecida como a "Emily" de "O Diabo Veste Prada" - preciso ver "Young Queen Victoria" - shame on me) não parece vender muito bem a produção. Em uma era em que o cinema está infestado de CGIs e não muito repleto de bons roteiros, o que esperar de um filme em que o protagonista está em uma guerra contra alienígenas que invadem o planeta e em que ele morre repetidas vezes, até aprender a derrotá-los? Praticamente é entregar-se a tendência onde videogames e cinema só vão ter uma diferença: um você controla, o outro, você apenas assiste.

Essa era a minha expectativa sobre "No Limite do Amanhã/Edge of Tomorrow". Que bom que foi assim. Esqueci de apenas alguns detalhes: um dos roteiristas é Cristopher McQuarrie (do marco "Os Suspeitos/Usual Suspects - ok, ele também escreveu a bomba "O Turista/The Tourist) e, principalmente, o diretor é Doug Liman. Isso fez toda a diferença entre uma baixa expectativa e um ótimo filme.

Emily Blunt e Tom Cruise revivem o Dia D no século XXI no excelente "No Limite do Amanhã". Foto: cinemablend.com

As credenciais de Liman tem dois grandes filmes (que eu tenha visto): o primeiro "Bourne" (a Identidade), o filme que praticamente redefiniu os filmes e os heróis de ação (sérios) do século XXI, e o subestimado "Sr. e Sra. Smith". E é com o filme que reuniu, em todos os sentidos, o casal mais famoso do cinema atual (Brad Pitt e Angelina Jolie), que "No Limite do Amanhã" mais se aproxima. Se aquilo que parecia uma guerra de agentes secretos era na verdade uma metáfora para uma crise matrimonial em "Sr. e Sra...", "No Limite..." é uma releitura do Dia D, a invasão da Normandia, na Segunda Guerra Mundial, trazida para o século XXI (e se tornando uma possível releitura de "O Resgate do Soldado Ryan/Saving Private Ryan").

O começo do filme já quebra as pernas de qualquer preconceito que você possa ter contra o filme, com um Tom Cruise covarde diante de um duro coronel interpretado por Brendan Gleeson. Toques de humor, negro por vezes, como o atropelamento de Cruise por um caminhão, afastam o filme de qualquer tom de patriotada esperado. E o desespero dramático da repetição exaustiva de um mesmo dia, em oposição à comicidade do melhor filme sobre um eterno dejà vu ("Feitiço do Tempo/Groundhog Day"), também alijam "No Limite..." de qualquer semelhança com videogames.

No final, há ainda um dejà vu de "O Código DaVinci", mas não vou falar mais... até porque, tudo o que escrevi pode ser apenas o que eu li do filme. Talvez o filme seja apenas um retrato de situações em que não importe quem você seja, você apenas tem que fazer, a todo o custo, o que deve ser feito.

Na releitura de "Bela Adormecida", "Malévola", quem dorme é você

Ok. Muitos podem dizer que "Malévola/Maleficent" é uma forma de retirar o simplismo manequeísta das histórias infantis, contando as razões pelas quais alguém é levado a fazer o mal e que pode existir o arrependimento. Sim, e é exatamente isso. A palavra chave é "infantis". O filme é realmente estritamente voltado para o público infantil, apesar do tratamento de efeitos especiais de primeira, mas que não traz novidade alguma, e a ambientação feita pela direção de arte e figurinos, que, surpreendentemente, podem ser indicados ao Oscar.

O visual de "Malévola" é o único trunfo do filme. Foto: www.flickeringmyth.com

Apesar do roteiro e tentativa de argumentos fracos, Angelina Jolie e, principalmente, a escolha de Sharlto Copley (o protagonista do filme-surpresa sulafricano "Distrino 9") são os pontos fortes para os adultos. Jolie está bem, mas Copley é a medida certa da ambiguidade entre o mocinho sedutor e o vilão shakespeariano.

Vá, mas com suas filhas ou sobrinhas (de uns 8 a 13 anos). Só assim mesmo.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Franquia X-Men promove auto-reboot em "Days of Future Past/Dias de um Futuro Esquecido"

Um dos filmes mais esperados do ano estreou hoje. O novo "X-Men: Days of Future Past" tem um enredo muito parecido com alguns dos quadrinhos que lia em meados da década de 90, com um futuro apocalíptico onde os mutantes eram caçados por sentinelas. Mas no filme que marca a volta de Brian Singer à direção da franquia (foi diretor dos dois primeiros e produtor no restante), os sentinelas são muito mais perigosos que nos quadrinhos ou no ultra-cult desenho animado que passava na TV Colosso - eles são uma mistura de Vampira com Mística, capazes de se adaptar e enfrentar os mutantes com suas respectivas "kriptonitas".

Para evitar a extinção, os X-Men dão um jeito de mandar a consciência de Wolverine (Hugh Jackman) para o passado e conter a cadeia de eventos que leva os personagens à derrocada. A viagem no tempo leva os expectadores ao reencontro com o elenco do melhor filme da franquia, "First Class", com James McAvoy (Professor Xavier), Michael Fassbender (Magneto) e Jennifer Lawrence (Mística). Além disso, o vilão neste filme é o excelente Peter Dinklage (o Tyrion Lannister de "Game of Thrones").

Wolverine (Jackman) pode ser o chamariz da bilheteria da franquia, mas o ying-yang de Xavier/Magneto e as magníficas interpretações de McAvoy e Fassbender são a beleza da nova fase dos filmes dos X-Men

Se a história fica bem aquém de "First Class/Primeira Classe" (onde conhecemos as origens dos personagens e a questão da xenofobia e intolerância está muito presente e bem retratada), os efeitos realmente são de tirar o fôlego, além de um elenco muito afiado. E é o elenco a grande razão da existência do filme. "Days of Future Past" prepara a série de filmes de X-Men para um novo presente, onde até mesmo Jean e Scott (dois personagens centrais nos quadrinhos) estão de volta, além da manutenção dos Oscarizados/Oscariáveis (McAvoy-Fassbender-Lawrence) citados acima. É um "Control+Alt+Del" em tudo o que foi feito para que novos filmes com os novos protagonistas sejam produzidos.

PS: fiquem até o final, que mostra cenas do próximo filme, X-Men: Apocalypse (2016)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Elenco cult engana desavisados em "Godzilla"

Estreou nesta quinta a enésima versão do monstro japonês que destrói grandes cidades há mais de 60 anos no imaginário da cultura pop. E com um elenco formado por Bryan Cranston (que ganhou todos os prêmios da TV com a série cult "Breaking Bad"), a francesa Juliette Binoche (ganhadora do Oscar por "O Paciente Inglês" e vencedora do César por "A Liberdade é Azul"), o japonês Ken Watanabe (indicado ao Oscar por "O Último Samurai"), a adorável maluquete inglesa Sally Hawkins (indicada ao Oscar este ano por "Blue Jasmine") e o cult David Strathairn (indicado ao Oscar por "Boa noite, Boa Sorte") não há como não conferir.

Mas o filme é decepcionante e perde totalmente seus poucos atrativos quando este elenco vai se apagando para dar lugar ao protagonismo do esforçado (inglês!?) Aaron Taylor-Johnson (se bem que Strathairn também fica do lado canastrão aqui). Depois que o personagem de Cranston morre (ah, spoiler de filme ruim não é pecado!), você percebe que o texto é muito, muito ruim... Cranston, Binoche, Hawkins e Watanabe é que davam alguma credibilidade a ele.

Incursão arriscada de Cranston no mundo dos blockbusters. Entre mortos (inclusive ele) e feridos, o astro de "Breaking Bad" se salva da bomba. Foto: ontheredcarpet.com
Depois disso, vemos uma batalha de efeitos especiais que em nada acrescentam ao que já vimos nos últimos oito anos de cinema. Pule este e aguarde o novo X-Men.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

"Noé" discute livre-arbítrio à la Aronofsky

No começo do mais novo filme do (excelente) diretor Darren Aronofsky, o personagem central, Noé (Russel Crowe) ensina a seus filhos que somente o suficiente para a sobrevivência deve ser colhido da natureza. O filme também dá entender que os descendentes de Seth (filho de Adão e Eva) não eram carnívoros. Estes eram os descendentes de Caim (que matou Abel, ambos filhos dos primeiros da criação divina), que fundavam cidades, instauraram a cobiça e a ganância, que trouxeram o sofrimento e o caos para a humanidade, razão pela qual o Criador decidira por inundar a Terra e causar um "reboot" bastante traumático em todo o seu/nosso sistema.

Subliminarmente, o filme trás o conflito sobre o que deve ser feito e o que pode ser feito, testando os limites destas duas situações. Para o antagonista Tubal-cain (Ray Winstone), os animais e tudo que há na Terra estão ali para que sejam subjulgados pelo homem, feito imagem e semelhança do Criador, e com o poder de decisão para fazer o que quiser, quando quiser; Noé nos faz pensar se não somos apenas parte da natureza, e não o seu senhor.

O filme coloca várias dicotomias modernas e recentes em seus temas - veganos x onívoros, religiosos x ateus, hippies x yuppies, sustentáveis x consumistas - além de sentenciar que a ganância e a sede por sangue está intrínseca na humanidade todo tempo, em qualquer tempo (em cena de fantástica edição e montagem, o grande mérito técnico do filme).

Elementos de outros filmes de Aronosfky (do aclamado "Requiém por um Sonho", do underrated "The Fontain" e do quase-blockbuster-cult "Cisne Negro") estão em Noé: delírios, sonhos e alucinações, trabalhando para que uma mensagem metafórica e transcendental desafie nossos sentidos para enxergarmos além do que está sendo mostrado diante de seus olhos. O resultado pode não ser tão bom quanto os outros exemplos citados, mas, ainda assim, é válido.

A maçã e a serpente, os símbolos do pecado original - Foto: http://www.mtv.com/news/articles/1717553/noah-epic-gifs.jhtml



terça-feira, 18 de março de 2014

Desaparecimento do voo malaio exacerba inverossimilhanças de "Sem escalas"

No tiro fatal desferido por Oscar Schindler, ops, Liam Neeson, na pele do agente federal aéreo que come o pão-que-o-diabo-amassou em "Sem escalas/Non-stop" para encontrar o terrorista que mata passageiros de 20 em 20 minutos em um voo NY-Londres, muitos na plateia soltaram o indefectível "aaaaaaaaaaahhhhh (você-tá-zuando-comigo-que-o-revólver-flutuou-certinho-na-mão-dele-para-ele-matar-o-vilão-na-hora-H)". Pra mim, isso poderia realmente ter acontecido (por quê não, oras? Cinema é pra acontecer o fantástico, não necessariamente o possível).

Momento-chave do filme-pipoca do mês. Foto: Portal Vírgula

O que de fato parece ser inacreditável é a maneira como o personagem de Neeson, sob intensa pressão, conseguiu ir diminuindo a lista de suspeitos, investigando um a um com precária ajuda tecnológica dentro e fora do avião. A prova disso é o assunto mundial do momento: o desaparecimento do voo MH370 da Malaysia Airlines.

Mais de 10 dias se passaram e nada de ter uma pista concreta do paradeiro de um Boeing 777, que saiu do radar e voou por muitas horas em direção desconhecida até o momento. Para aumentar o índice de surrealidade da história real, tudo indica que uma das pessoas que mais "viajam" no mundo tem uma pista: Courtney Love!!!

No mais, o filme trás um elenco coadjuvante forte (até demais para um filme pipoca ok!): Julianne Moore, Michelle Dockery (a amada-chata de "Downton Abbey) e a estrela do ano no cinema, Lupita Nyong'o, em um papel pré-Oscar muito pequeno.

Pra mim, até valeu a pena ir ao cinema (queria algo leve, sem ter que pensar muito, em uma tarde modorrenta). Mas talvez seja apenas uma boa estreia do Telecine pra todo mundo...

quarta-feira, 5 de março de 2014

Robert Redford protagoniza "Gravidade" marítimo em "Até o fim"

Um amigo meu gostou muito dos aspectos técnicos do filme que mais ganhou Oscars neste ano, "Gravity/Gravidade", mas fez algumas ressalvas ao roteiro. Para ele, o filme apelou ao drama raso e artificialismos (como o retorno do personagem morto - George Clooney - para reanimar a protagonista a lutar pela vida) para não ser o que deveria ser: um filme sem diálogos, já que a Sandra Bullock está sozinha no espaço.

Pois bem. A versão que privilegia a realidade, e muito mais capaz de acontecer em maior escala em todo o planeta, chega às telas dos cinemas brasileiros nesta sexta. Em "All is Lost/Até o Fim", o veterano ator Robert Redford faz história ao protagonizar um filme em que há apenas um ator e pouquíssimas falas. O personagem nem nome tem. Creditado como "Our Man", o protagonista luta pela sobrevivência no Mar Índico logo após o seu barco (que é muitíssimo bem equipado, aliás) ser atingido por um container de tênis que provavelmente estava vindo abastecer o estoque da Netshoes, vindo da China.

Depois disso, acompanhamos Redford em uma luta Magaiveriana para tentar consertar o barco, saber sua localização através de mapas e astrolábios e manter-se hidratado de forma surpreendente. A direção é de J.C. Chandor, do ótimo "Margin Call", filme cheio de atores e falas, mas não muito menos interessante, explorando as minúcias da última crise econômica mundial.

Para mim, "All is Lost" é um ótimo filme que confirma a tendência do cinema mundial - recriar, da maneira mais real possível, eventos incríveis e que a transmissão das sensações é muito mais importante do que reflexões que permanecem com os expectadores após os 120 minutos de projeção. O maravilhamento fica nos olhos e no arrepio da pele.

Robert Redford, 77, mostra muita disposição física e não desiste "Até o Fim" do filme em que é o único ator em cena


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Roteiro extraordinário é a força de "Blue Jasmine"

Com muito atraso, vi o mais recente filme de Woody Allen (diretor e roteirista), "Blue Jasmine", indicado ao Oscar de melhor roteiro original, atriz (Cate Blanchett) e atriz coadjuvante (Sally Hawkins). No começo, com a personagem principal, interpretada magistralmente pela classuda Cate Blanchett, favoritíssima ao Oscar, a impressão que tive é que seria mais um dos típicos filmes de Woody Allen, com o personagem principal sendo um verborrágico reclamão da própria vida, atormentando os coadjuvantes em busca de sua própria satisfação utilizando muitas vezes de um sarcasmo de excelente comicidade.

Cate Blanchett e Alec Baldwin são a dondoca e o milionário golpista em "Blue Jasmine", de Woody Allen - Foto: Sony Classics
Ok, é uma maneira de ver até mesmo "Blue Jasmine", com a diferença que o filme estrelado pela australiana é um drama profundo, que engana os espectadores e mostra, ao longo de flashbacks não muito bem delineados, como Jasmine passou de uma dodoca egocêntrica para uma viúva sem-teto que precisa ir morar na casa da irmã adotiva classe média, sem classe e escolaridade (além de dois sobrinhos barulhentos), após descobrir que era traída pelo marido e tê-lo entregado ao FBI por suas falcatruas financeiras. O marido, interpretado por Baldwin, acaba cometendo suicídio.

O choque de personalidades garante os momentos cômicos, mas aos poucos, a esquizofrenia e a insensibilidade da personagem principal, que faz de tudo para retomar sua vida sem esforços e cheia de luxo, toma conta da história. O filme não tem o seu sentido completo desvendado até a última cena, quando nos perguntamos se muitos dos andarilhos que vemos pelas grandes cidades não tem alguma interessante história para contar diante de sua aparente loucura e falta de senso lógico. 

Sobre os prêmios, o filme merece vencer em atriz e roteiro. A interrogação é se o novo escândalo sexual/incestuoso de Woody Allen não vai espantar os votantes da Academia. O histórico diz que não, já que Woody é um dos mais queridos de Hollywood, com 24 indicações e quatro estatuetas.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Lupita Nyong'o ilumina o excelente "12 Anos de Escravidão"

Nesta semana, entrei no site da Amazon e comprei por menos de R$ 3,00 o livro "12 years a Slave", de Solomon Northup, com comentários históricos de Sue Eakins. Foi arrepiante ler em um Kindle, no meio da noite, as palavras "para aqueles que estiverem lendo estas páginas"... dá um senso de diálogo ao longo dos séculos e também estranheza, já que não estava lendo propriamente uma página...

Solomon descreveu com detalhes toda a sua passagem (que durou de 1841 a 1853) de um homem livre do norte dos EUA, que nunca conheceu a escravidão, para uma realidade impensável, de um negro do sul do mesmo país nos meados do século XIX, após ser enganado, drogado, raptado e jogado em um porão por traficantes de escravos profissionais.

Obviamente que a leitura do livro e ir ao cinema assistir ao filme (em preestreia, dia 21 entra em circuito) do aclamado diretor britânico Steve McQueen (de "Shame", que ainda não vi - whata shame!), faz parte da minha maratona rumo ao Oscar (que acontece no dia 2 de março neste ano). O filme foi indicado a nove estatuetas (filme, diretor, ator - Chiwetel Ejiofor, ator coadjuvante - Michael Fassbender, atriz coadjuvante - Lupita Nyong'o, direção de arte, edição, figurino e roteiro adaptado) e pela primeira vez em anos, fui ao cinema comparando um filme a um livro (algo sempre difícil e que exige flexibilidade crítica, em minha opinião).

Nestas situações, sempre há a sensação de que tudo está rápido demais, muita coisa está sendo deixada para trás... Mas Steve McQueen e o roteirista John Ridley fizeram um excelente trabalho. Os flashbacks intercalados em uma narrativa nem tão linear assim, além dos planos com múltiplos takes de câmera, trouxeram para o século XXI algo tão bem caracterizado pelas locações e figurinos no século XIX. Ridley conseguiu criar falas que no livro são apenas descritas para poder levar a história à tela, além de ser criterioso o bastante para cortar partes que reduziriam o drama e ter sensibilidade o bastante para manter diálogos cruciais absolutamente intactos.

Mas há uma coisa que tirou todo o senso crítico de minha ida ao cinema (como comparar a atuação de Benedict Cumberbatch, inglês, que não consegue fazer sotaques americanos, a incrível interpretação do alemão Michael Fassbender, como o sádico Master Epps): todos os segundos em que a estreante Lupita Nyong'o está na tela. Em sua primeira aparição no cinema, como a escrava Patsey, a atriz brilha em cada fala, em cada gesto e em cada olhar, sendo responsável pelo momento mais marcante do filme, em que a partir dali, todos no cinema tiveram uma escolha: continuar chorando até o fim do filme ou não.

Lupita Nyong'o, como Patsey, em sua primeira aparição em "12 Anos de Escravidão/12 Years a Slave", de Steve McQueen - Divulgação/Facebook

Não à toa, ela levou o prêmio do Sindicato dos Atores (Screen Actors Guild Awards) e outras 21 estátuas (o Globo de Ouro foi para Jennifer Lawrence, por "Trapaça/American Hustle") e deve ser a favorita ao Oscar. Sobre isso, o filme é um dos favoritos, junto a Gravidade/Gravity (com quem dividiu o prêmio do Sindicato dos Produtores) e American Hustle. Será um ano daqueles para acertar a categoria melhor filme...

P.S.: Easter Egg - a linda Quvenzhané Wallis, que assombrou o mundo com sua incrível interpretação em "Indomável Sonhadora/Beasts of the Southern Wild", quando tinha apenas 6 anos e foi indicada ao Oscar, também está no filme... tente achá-la!

P.S.2: como assim a trilha sonora de Hans Zimmer não foi indicada?!?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Patriotada premonitória?

O filme "Invasão à Casa Branca" (Olympus has Fallen, no termo técnico da CIA, muito mais legal, by the way) tem tudo o que revolta os anti-americanos: trilha sonora grandiloquentemente irritante, apologia às armas, discursos de "we will prevail no matter what" e um cara que consegue fazer de um tudo, vivido por Gerald Butler.

Eu não sou anti-americano (pelo contrário) e gosto sim de filmes de ação. Óbvio que eles são melhores quando são tecnicamente inovadores (como a trilogia Bourne) ou tem realmente um roteiro por trás deles (como Casino Royale ou até mesmo Skyfall). Não é muito o caso de "Invasão à Casa Branca", que no máximo absorveu a sanguinolência de "The Walking Dead" para retratar as dezenas de mortes/assassinatos à queima-roupa.

O mérito do filme está em sua atualidade até mesmo de acordo com sua semana de estreia: os terroristas são da Coreia do Norte, que (ainda bem) não sai do chove-não-molha com seu ataque nuclear aos EUA. Em uma versão rocambolicamente impossível, o filme é um manual como a Coreia do Norte deveria proceder para conseguir seus objetivos. A falha do roteiro talvez seja em apostar na ação e não em explorar quais são esses motivos, que ninguém sabe ao certo quais são do lado de cá da telona.

O elenco está acima da história, com Butler com protagonista, Aaron Eckhart e Morgan Freeman tirando de letra a superficialidade dos papéis e Rick Yune (que não via desde de Die Another Day), como o vilão.

Se você está de férias e não tem o que fazer, assista!

sábado, 2 de junho de 2012

"El Dedo" é alegoria que relembra argentinos sobre o valor da democracia

A didatura argentina talvez tenha sido a mais violenta da América Latina durante as décadas de 70 e 80. Para relembrar a reconquista da democracia, o filme "El Dedo" ("O Dedo"), dirigido por Sergio Teubal, abusa do realismo fantástico para criar uma alegoria sobre este bem precioso que por décadas esteve em falta por nossos lados do mundo (e que, de alguma maneira, está sempre ameaçado).

Na virada de 1982 para 83 (ano que marca o fim da didatura na Argentina), um pequeno povoado ganha seu morador número 501 e poderá ter eleições municipais. O ricaço-coronel do vilarejo tem como adversário o dono da mercearia local, bastante popular. No entanto, este último é assassinado em um crime passional e seu irmão arranca-lhe o dedo, prometendo introduzi-lo no orifício anal do algoz (ok, perdoem-me tantos eufemismos). Sem um adversário a altura, o coronel pensa que ganhará as eleições facilmente. No entanto, o Dedo começa a apontar para os populares saídas para os mais variados dilemas, tornando-se o horáculo do vilarejo.

Utilizando-se de alegorias e muito bom humor, o diretor Sergio Teubal celebra a democracia e mostra que o povo só precisa de um direcionamento para que ele mesmo enxergue suas necessidades e consiga suprí-las, sem precisar do paternalismo / coronelismo / peronismo / kirchnerismo.

Em tempos revoltos em que a presidente Cristina Kirchner cerceia direitos da imprensa e expropria multinacionais estrangeiras, nunca é demais lembrar a reconquista da democracia e seus valores, celebrados por todos os personagens do filme, até mesmo o coronel.

"El Dedo" faz parte do 1º Festival de Cinema Argentino, em cartaz em São Paulo de 1º a 6 de julho. Vale a pena se jogar no escuro destas produções, já que, até hoje, nunca vi um filme argentino ruim. Pelo contrário... veja alguns exemplos aqui neste blog mesmo - "O segredo de teus olhos" e "O Homem ao lado".

sexta-feira, 18 de maio de 2012

David Cronenberg visita sua fonte de inspiração em "Um Método Perigoso"

O diretor canadense David Cronenberg, um dos meus favoritos, sempre teve a metamorfose como seu tema principal. Seja em seu tipo mais bizarro e literal, como no clássico da ficção "A Mosca"  (que mostrou ao mundo o ator Jeff Goldblum), seja em seu sentido mais humano e sensível, como em "M. Butterfly" (com Jeremy Irons, um dos meus atores favoritos), seja em seu sentido mais intríseco e psicológico, como seus últimos filmes vem revelando ("Senhores do Crime" e "Marcas da Violência").

Assim como os dois últimos filmes citados, o mais recente Cronenberg traz o ator Viggo Mortensen no elenco, no papel do papa da psicanálise Sigmund Freud. A amizade e o antagonismo crescente como o protagonista do filme, Carl Jung, (interpretado pela estrela mais ascendente de Hollywood no ano, Michael Fassbender), é o centro de uma batalha literalmente bem escrita, dirigida e filmada na produção "Um Método Perigoso".

Além dos aspectos técnicos e artísticos destacados pelos dois atores, há também a surpreendente atuação de Keira Knigthley, sempre mocinha sofredora em outros filmes e que neste tem que revelar seus mais obscuros ângulos ao ser o objeto de estudo do psicanalista suíço.

Na fonte da raiz da psicanálise, o estudo das mais diferentes metamorfoses, Cronenberg entrega um dos melhores filmes de sua excelente lista de obras instigantes.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Favorito ao Oscar, "O Artista" é clássico sobre os clássicos

Uma ideia que parece simples, mas que ninguém fez, ou pelo menos ninguém o fez tão bem quanto o diretor francês Michel Hazanavicius: homenagear o cinema mudo americano ao recriar a magia do preto e branco da década de 20 e sua grande reviravolta - a introdução do som na sétima arte. Em "O Artista", Hazanavicius imprime com maestria todas as técnicas do cinema mudo, como a edição dos filmes de terror como "Frankenstein" e a inspiração da direção de atores dos filmes do genial Chaplin.

O filme está em paralelo com o clássico absoluto do cinema em que a temática do impacto do som no cinema mudo é o fio condutor: "Dançando na Chuva". No entanto, se a produção ápice da carreira do ídolo Gene Kelly o som é a salvação, em "O Artista", os efeitos sonoros são no mínimo um barulho incômodo na carreira estrelada do protagonista do filme, o galã fictício George Valentin.

E se o trabalho do diretor (e também esplêndido roteirista) é o grande trunfo do merecido favorito ao Oscar deste ano (com dez indicações), a dupla de protagonistas não fica atrás. Os franceses desconhecidos do grande público (no qual me incluo) Jean Dujardin e Bérénice Bejo (nascida na Argentina, mas criada em Paris) dão um show de caras, bocas e posturas na difícil tarefa de interpretar situações corriqueiras e clichês sem serem caricatos.Dujardin é o favorito a melhor ator, mas Bejo é quem me conquistou por completo. A cena em que imagina-se com o galã em seu camarim é digna do mestre Carlitos.

O filme é uma imperdível lição da sétima arte, com inteligentíssimas metalinguagens e uma homenagem mais do que digna dos franceses, os inventores do cinema, aos que transformaram as películas em uma verdadeira indústria: Hollywood. Nada mais justo que Hollywood retribua a gentileza no próximo dia 26.